Em uma decisão que se mostrou visionária, a Lottopar (Loterias do Estado do Paraná) impediu, em maio de 2024, que o Consórcio Upper, ligado aos empresários Rafael e Roberto Razuk, disputasse a licitação para operar modalidades de loteria no estado. A atitude, baseada em um rígido parecer de compliance, foi crucial para evitar que o Paraná abrigasse pessoas envolvidas com o crime organizado. Nesta terça-feira (25), a eficácia dessa medida foi comprovada com a prisão de Roberto Razuk, seus filhos Rafael e Jorge, e outros integrantes do grupo pela operação Successione do Gaeco/MPMS (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado, do Ministério Público de Mato Grosso do Sul).
Naquela ocasião, o setor de compliance da Lottopar identificou que os Razuk tinham histórico criminal – incluindo condenações por tráfico de armas e crimes contra o sistema financeiro – e “suposta ligação com atividades irregulares”. O parecer, aprovado pela diretoria, concluiu que o vínculo dos empresários com “práticas de jogos ilegais” era incompatível com a integridade exigida para gerir loterias estaduais. Apesar de recursos da defesa, o diretor-presidente Daniel Romanowski manteve a desclassificação, em uma atitude inédita e louvável que priorizou a lisura do processo.
A quarta fase da Operação Successione, que cumpriu 20 mandados de prisão, desmantelou uma organização criminosa que tentava assumir o controle do jogo do bicho em Campo Grande. A investigação aponta o deputado estadual Neno Razuk (PL), outro filho de Roberto, como líder do esquema, que contava com policiais militares como ‘gerentes’. A prisão dos Razuk no Mato Grosso do Sul valida integralmente a decisão tomada meses antes pela Lottopar, confirmando que a família buscava infiltrar o crime organizado no setor de loterias legais.
A atuação firme da Lottopar não apenas protegeu o erário paranaense, como serviu de barreira ética, impedindo que figuras centralmente investigadas pelo Gaeco obtivessem a chancela do poder público. Enquanto a Lotesul (Loteria Estadual de Mato Grosso do Sul) teve sua licitação suspensa após manobras do grupo, o Paraná seguiu adiante com o certame, contratando uma empresa idônea e arrecadando R$ 27,5 milhões em 2024. A decisão, inicialmente criticada, revelou-se um caso exemplar de como a rigorosa aplicação da compliance é a melhor defesa do interesse público contra o crime organizado.
Foto: Roberto Dziura Jr/AEN


